Vou Festejar

Composição: Neoci / Dida / Jorge Aragão

Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar
Mas chora!
Chora!
Não vou ligar
Não vou ligar!
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar...

É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...(2x)

Mas chora!
Chora!
Não vou ligar
Chegou a hora
Vais me pagar
Pode chorar
Pode chorar...(2x)

É, o teu castigo
Brigou comigo
Sem ter porquê
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...

Você pagou com traição
A quem sempre
Lhe deu a mão...(2x)

Laraiá Laraiá!
Lá Laiá Laiá!
Laiá Laiá!
Laiá Laiá!
Eu vou festejar
Vou festejar!
O teu sofrer
O teu penar...

Você pagou com traição

A quem sempre

Lhe deu a mão...(2x)

 

Omissão ou mentira?

A mentira tem várias facetas. Uma dela é a omissão.

A omissão não é menos perversa do que a mentira, na verdade, quem omite guarda na manga (ou induz) o seguinte argumento: "Mas você não perguntou...." Então cabe ao enganado uma maratona de suposições para que o outro, bem aos poucos, dê as informações na medida em que isso não lhe cause transtornos.

A omissão também carrega de forma implícita outra crueldade, a da falsa proteção. Em vez de se abrir com o parceiro e arcar de frente com as consequências, quem omite, no final de tudo, quando não resta mais argumentos, dá a cartada final e diz: "Fiz isso pra te poupar, para te proteger".

Há também mais uma perversidade por trás da omissão, esta é bem mais elaborada, fruto de uma mente absolutamente manipuladora, é a omissão para no final dizer:"Mas eu não menti para você! Em nenhum momento eu menti". Esta é a que carrega mais premeditação, a pessoa mente para si mesmo dizendo que mentir jamais, mas omitir é perdoável, afinal, cabe ao enganado fazer as perguntas certas nas horas certas.

Claro que há casos de doenças, de mortes, onde a gente pode omitir porque o momento exige, mas em relações, em acordos, onde deveria existir a palavra de honra, acho que isso não deveria existir.

O que os olhos não vêem...

"O que os olhos não vêem, o coração não sente." Talvez seja esta uma das frases mais usadas para quem não está em paz com a própria consciência e deseja se enganar - e aos outros - a qualquer custo.

Acho que quando os olhos não vêem, todos os sentidos da alma, e todos os órgãos do corpo ficam mais aflorados, a ponto da gente sentir aquela angústia que vem 'do nada'.

O coração para ser insensível deve estar morto, paralisado, engessado por medos ou ilusões, aí sim ele pode não perceber que gota a gota, a 'corrente de vida' que o atravessa está embebida do mais fino e dissimulado veneno: a mentira.

Feliz Natal

Falta um dia para o natal e minha tristeza parece não parar de crescer. Este foi um ano relativamente bom, foi um ano de estabilização mas sem grandes crescimentos. Ah sim, comecei a faculdade, mesmo depois de velho ela tem sido uma coisa boa para a minha vida. Este ano consegui pagar minhas contas, estou mais organizado financeiramente e acho que neste quesito as coisas continuarão bem em 2010. A minha vida amorosa continuou conturbada, esse ano foi melhor que em 2008, mas mesmo assim, muito aquém do que eu esperava. Minha mente não sai do relógio, do calendário, sinto-me como quem se prepara para o corredor da morte, trágico, não? Estou exagerando, eu sei, mas estou angustiado mesmo. São muitas indecisões, certezas e sombras que me cercam. Ser pragmático me ajuda a fazer as coisas quando elas devem ser feitas, mas em certas horas, quando esbarro com o coração, o melhor lado que tenho, o prático, fica debilitado e se perde no labirinto das emoções. Não gosto nada disto. Estou dando voltas, né? Tenho muito para falar, mas por aqui não dá, hoje não, este ano não, outro dia quem sabe me abro mais.

Vazio I

Estou agora em meio ao meu vazio. Os tibetanos dizem que nenhuma casa está vazia se a mente está preenchida. Desde que minha casa se esvaziou (não vem ao caso o motivo), muito do poder simbólico, do que chamamos lar, com as coisas se foram.

Ajudei a comprar e escolher os móveis, os quadros, os enfeites e num único dia tudo se foi. Eu sabia que parte dos meus pertences iriam, mas não sabia que o material refletiria parte da minha identidade e sem ele eu não conseguiria me ver tão nitidamente como antigamente. Na verdade, este desabafo nada tem a ver com a casa vazia.

Só lembrei disso porque, quando escrevo, de frente para o computador há uma escuridão de sentidos, vindo da sala, que dialoga comigo mesmo sem a minha vontade. Sempre amei o 'meu cantinho', digo, o meu lar. Hoje não vejo ele e não me vejo mais nele.

Uma casa de uma pessoa só (entenda isso nos dois sentidos do 'só'), carece de vida e de movimento, que eu, sozinho, não sou capaz de fomentar. Amo a colaboração em todas as esferas da minha vida, no estudo, no trabalho e também no amor. Sinto falta disso hoje na minha casa, deste fluxo colaborativo, de vidas circulantes.

Pensar em filhos nessas horas é mais que natural, mas filhos devem vir para eles viverem e não para preencherem os vazios das pessoas. Engraçado, que no começo desse texto, eu nem imaginava que a figura da casa entraria nele, mas é interessante ver como isso tomou um posicionamento central na minha narrativa.

Dizem que a casa reflete muito da nossa personalidade, acho que vou mudar este papo para esta parte, deve ser mais produtivo. Personalidade Neste instante, querendo me livrar do tema da materialidade do meu lar, não posso negar, que no mesmo período da partida dos meus símbolos materiais, eu criei uma ruptura considerável com as crenças e valores que eu sempre cultivei. Isto foi muito marcante para mim.

Não convém entrar em detalhes tão pessoais, fico extremamente constrangido até mesmo postando isso de forma anônima neste blog. A passagem de 2008 para 2009 foi o momento mais marcante da minha vida. O falecimento da minha mãe de forma repentina, o esvaziamento do meu lar, brigas na minha relação e, para fechar com chave de ouro, uma enorme decepção amorosa quando o que eu mais precisava era conforto e estabilidade emocional. Isso tudo aconteceu em um ou dois meses, muita coisa para digerir, muitas escolhas para fazer, muitas malas para deixar pela estrada... Ainda não estou recuperado, na verdade, de nenhum destes acontecimentos.

Detesto a posição de vítima, não é o caso, mas o fato é que tomei muita porrada na minha estrutura em muito pouco tempo e não tenho a quem recorrer, ou melhor, nem sei se isso faria alguma diferença a essas alturas, pois só resta curar as feridas e aprender com as cicatrizes. Tenho feridas bem abertas mas não sou todo dor, em mim, mora alguém que acredita em felicidade e que, de alguma forma, sabe que isso é passageiro, que é apenas um período triste e infeliz que servirá apenas para dar contraste a um futuro de mais prosperidade.

O desconhecido eu

Ele acordou com a freada do metrô. Ao abrir os olhos, percebeu que não ocupava mais um lugar no espaço, seu corpo se movia mais lento do que o normal, era hora de levantar pensava Ele, algo dizia que a estação era aquela.Estranha a sensação de não ser notado pelos demais, na rua, os esbarrões não aconteciam com tanta frequência, aliás, naquela tarde, ninguém mais lhe tocou.No bolso da calça um volume chamou atenção, era uma carteira com papéis velhos, havia pouco dinheiro, mas nada parecia familiar.

O Privado e o compartilhado numa relação a dois

Há pouco tempo tive a experiência de viver o dilema de saborear o dúbio sabor da privacidade numa relação. Até que ponto há reservas entre namorados ou casados, até onde ocultar ou até mentir em nome de uma boa relação. Evidentemente que não há regras, receitas de bolo e cada casal tem os seus limites que devem ser negociados.

Contratos, como sempre digo, onde as cláusulas devem ser claras e, em princípio, não devem ferir a nenhuma das partes. Mas até onde é aceitável a 'privacidade a todo custo' do nosso parceiro? A resposta é simples: até onde ele se mostra confiável para gerenciar a parte dele no contrato.

Há casais onde um simples toque de celular pode ser o começo de uma crise. O parceiro corre para o banheiro para atender, se desloca para outro cômodo, sussurra baixinho, ou responde numa atitude de visível desconforto diante do companheiro. A alegação para este tipo de atitude é sempre o espaço próprio, a manutenção da individualidade ou até medo de ser mal interpretado.

Outro conflito extremamente comum se dá quando o marido separa o final de semana para encontros com os amigos, seja para o choppinho ou futebol. Claro que a esposa sabe que ele mantém este hábito, é uma continuação da sua vida de jovem e que prioriza as suas amizades, o que parece bem saudável e natural. No último caso, a esposa poderia participar da rodada de chopp, fazer parte da torcida, ou mesmo preparar a caipirinha depois para depois do futebol. Mas para haver esta interação, ela deve estar inclinada na mesma direção do marido e, ao mesmo tempo, deve haver uma disposição do marido em incluir a amada nos seus encontros.

Recentemente, com o uso generalizado da internet e com a entrada dela nos escritórios e residências, fica cada vez mais comum os encontros - e desencontros - gerados pelas ferramentas de redes sociais, como MSN, Orkut, Chats etc. Em algumas casas, as máquinas são compartilhadas, em outras, cada cônjuge possui seu próprio computador, muitas vezes por questões profissionais. Mas até onde o uso de ferramentas como MSN ou Orkut deve ser um ambiente blindado à visão do parceiro? Há justificativa para se ocultar mensagens do outro quando numa 'sociedade' a confiança deveria ser a base da relação? A resposta não tão é simples. Em primeiro lugar há diferentes tipos de relações.

Pode-se ocultar certas coisas do parceiro para manter a "boa atmosfera", onde sucessivas mensagens amorosas a um amigo ou amiga pode vir a ser interpretado como flerte. Mas e quando se vê, de forma clara e explícita, mensagens de insinuação? Como reagir? A resposta é ainda mais complicada. Há um dilema ético envolvido em certas ações quando se descobre que o outro ultrapassa os limites acordados na relação.

É muito recorrente o uso, por parte de um dos parceiros desconfiados, de programas para monitorarem a escrita de uma determinada máquina dividida pelo casal. Evidentemente que é uma atitude condenável, principalmente quando não 'se descobre' nada. Mas e quando se acha mensagens comprometedoras? Neste caso, os fins justificam os meios? Vamos desdobrar este assunto.

É extremamente comum pessoas trocarem brincadeiras afetivas, sensuais e sexuais pela internet. Neste ambiente, onde se pode criar personagens e viver vidas virtuais, as pessoas podem assumir faces muito mais reais do que se encena no seu dia a dia. Até onde isso pode virar um problema real na vida do casal? Até onde a fantasia e a interação dela via internet pode virar um caso de traição e não uma simples brincadeira? O que separa ao meu ver a brincadeira do risco real é o momento que o casal vive e, por outro lado, a disposição real do parceiro a cometer uma infidelidade.

Num ambiente de brigas, de desentendimentos e até de pura insatisfação, este flerte que poderia ser um ensaio fantasioso pode virar uma verdadeira arma contra o outro parceiro. Dificilmente alguém levaria adiante um desentendimento causado por uma "infidelidade virtual" onde o outro estaria do outro lado do planeta. Mas e quando o outro é conhecido ou vizinho do casal? Estaria o flerte estritamente ligado ao ambiente virtual? Há garantia para o parceiro afetado? Neste caso a temperatura começa a esquentar e o que poderia ser uma simples fantasia/brincadeira torna-se uma potente fonte de conflitos.

Voltando ao tema central, até que ponto é positivo manter e defender a total privacidade numa relação? Há dois ditados populares que se conflitam e se complementam neste dilema: "Quem não deve não teme" "Quem procura acha (mesmo que não haja nada)"

Voltei ao Orkut

Devido aos apelos da minha amada, retornei ao Orkut.

Confesso que ainda não estou totalmente acomodado nele, estou meio que sem identidade. Chamei alguns amigos e continuo adicionando outros de forma tímida. Não sei mais o que fazer com ele, perdi o prazer de entrar e participar das comunidades, que era a única coisa que fazia no passado.

Antes, eu usava o Orkut para fins profissionais, hoje, sei lá, me sinto um bobo na corte, um palhaço a espera de uma bolada para cair numa piscina. Graças ao Orkut muitas relações se fizeram e desfizeram. A transparência dele dói. Te obriga a ver o que não seria tão fácil no mundo real, e isso é duro.

O "legal" do Orkut é que por mais que seu parceiro(a) seja dissimulado(a), o outro lado sempre entorna o caldo, vamos a um exemplo: Uma amiga terminou um namoro de 2 anos porque viu um scrap duvidoso na página do amado. No scrap só havia algo assim: "Ontem foi inesquecível". Eu até argumentei que talvez não fosse o que ela pensou, mas bingo, ela estava certa, era um scrap da amante, e a amiga, de tanto pressionar, ele confessou. Sortuda ela né? Deus louve os scraps que são escritos na madrugada e apagados nas primeiras horas da manhã sorrateiramente.

Deus louve o faro dos ciumentos que por via de regra, nunca estão 100% enganados. Mas no Orkut não há só esse tipo de coisa, há também as comunidades, há troca de conhecimento, há muitas coisas boas, até, namoradas online.

Aos meus amigos, digo que voltarei.

Não sei se tenho sido bom amigo ultimamente. Tenho vivido tantos problemas de ordem sentimental que não tenho tido tempo de compartilhar essas complicações com as pessoas que mais gosto e estimo.

Na realidade, para ser sincero, não gosto de 'alugar' as pessoas que amo com problemas que só cabe a mim resolver. Em parte porque é chato mesmo roubar o tempo alheio. Outra razão é que em brigas de casal, quem está de fora tem sempre soluções mais objetivas e simples do que quem está dentro. Então quero manifestar que o fato de eu manter a minha distância é mais para preservar vocês dos meus problemas do que outra coisa qualquer.

Ah, eu menti! Há a questão do orgulho. Sempre fui bem resolvido afetivamente e hoje estou num fracasso de relação. Compartilhar isso é terrível. Minha sensação é de estar andando numa esteira de academia, me esforço muito, gasto tempo para não sair do lugar.

Não sei quando, mas eu voltarei a conversar, escutar, trocar idéias, enfim, voltarei a ser amigo, mas antes porém, preciso cuidar de mim mesmo e disso que acredito ser uma relação.

Aliás, hoje, ao sair do trabalho, como senti falta de um ombro amigo para chorar e conversar. Sorte de vocês não cruzarem o meu caminho, sorte minha por não expor a minha privacidade.

Sou meio utópico com relações, acredito que ninguém seria melhor ouvinte do que a nossa parceira, mas quando eu cair na real e ver, que desta vez é inútil, eu procuro por vocês.

Desgastes, atritos e desencontros

Tenho vivido nos últimos meses um elevado grau de incerteza na minha nova relação.

No começo, pensei que era apenas uma questão de diálogos, ou, falta de entendimento na nossa conversa.

Depois de um tempo, no entanto, percebi que o problema poderia ser mais específico do que falta de conversa, que ele passaria por falta de confiança nas coisas que eu digo, penso e demonstro sentir.

Para mim, essa falta de confiança não viria necessariamente da crença de que estaria mentindo, e sim, de que não consigiria ter a percepção correta do que eu estaria sentindo.

Com o tempo passando, depois de inúmeros desgastes e discussões, percebi que o caos se estabelecia pela desconfiança real, da minha boa fé, e principalmente, pela profunda falta de respeito e até mesmo de admiração por mim.

Por falar em admiração, hoje percebo o quanto isso faz falta numa relação. Ter orgulho de ter um parceiro que é bom em essência, de que ele é leal, é um dos pilares do amor. Não sinto isso na minha relação. Nunca me senti tão desprestigiado enquanto ser humano e parceiro de relação como tenho me sentido ultimamente.

O fato de eu sentir falta de ser valorizado não é necessariamente para que eu sinta meu Ego massageado, não, acho que isso é a base para que o verdadeiro respeito se manifeste.Estou num labirinto onde eu tenho a direção da porta da saída. Preciso sair antes que eu me perca de vez.

Trens e partidas

Em toda estação, há gente que vai e há gente que fica. Os olhares no entanto sempre estão perdidos aonde não se está. Estamos todos presos na dor do que não somos, do que não temos, do que não fizemos...

O trem leva e traz amores. Uns corações choram de felicidade e outros de saudade. Assim está o meu na hora do adeus.

A leveza do vento que toca o meu rosto, parece embaralhar os meus sonhos que ficam desnudos a minha frente. Diante da amplidão do vazio, me resta juntar as minhas forças e andar, sozinho e de cabeça erguida, com retidão.

Sonhei que o mundo havia parado, que o relógio estava congelado enquanto as pessoas viviam normalmente. Todos os fenômenos naturais ficaram estáticos, mares, objetos eletrônicos, nada se mexia, só as pessoas. Havia o pânico da repetina volta, o que aconteceria se o mundo voltasse ao normal? Hoje eu acordei e ele voltou.

Palhaço

O palhaço mente a sua dor, sorri para amada chorando por dentro a sua partida. Sorrir... relevar... qualidades de um verdadeiro palhaço. Sinto-me assim. Um verdadeiro e genuíno palhaço, no sentido mais profundo e menos jocoso. Palhaços não ficam de mal. Palhaços não falam alto e nem duro. Palhaços nunca ficam tristes, isso pode espantar o público e frustrar as crianças.Manter a maquiagem é duro. As pessoas não perdoam um palhaço com a cara crua.

Orkuticídio - eu fiz!

Depois de anos de Orkut, enfim, chegou a hora da morte. A decisão da partida veio há algum tempo, estava amadurecendo esta idéia, sair da minha rede social, esquecer as minhas comunidades, abdicar dos meus amigos. Morrer para renascer.

Queria ter sido mais forte. Queria ter resistido mais bravamente, mas não deu. Assim como na morte real, às vezes, é preciso descansar e dar espaço para os outros, para os mais jovens. Muitas vezes é preciso que um morra para que o outro renasça, pelo que vi, já nasceu e vai muito bem, obrigado.

Dar espaço... Faço sempre que me sinto no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada. Acho que foi isso, mudou o contexto, mudaram as pessoas, mudei eu, logo, parto desta existência para outras mais desafiadoras, que não me exijam tanta discrição nem que me tragam o cálice dourado embebido do sangue da minha alma, como ornamento para eu ostentar em minha morada.

Respicere

Ver o outro como ele é... era tão fácil.... hoje luto para ver o que há por trás de uma simples pétala de rosa... mas nada encontro.Acabou-se o respeito dizem os velhos. Velhos... velhos... assim sou visto eu sei, pensei que chegaria lá um dia, pelo visto, já cheguei.Na vida tudo tem o seu preço. Estou pagando, à vista!

Confiança

Uma parada

O coração estava cansado de bater. A mente não respondia há algum tempo. A família percebeu, e preocupada, solicitou auxílio médico mas de nada adiantou. Tudo fora em vão, cada pulsar, cada lembrança, cada sorriso, cada abraço. O paciente, por mais que fosse paciente, não resistiu. O amor deu espaço ao vazio.

Frio encontro

Fazia frio e nem inverno era. O coração procurava abrigo em outro peito que não o meu. Corações vazios cruzavam a avenida, olhos distantes como quem pensa buscar o amado além da nossa presença. Fazia frio naquele dia e o abrigo era como um telhado solto, protegia da chuva e sereno, mas ameaçava cair sobre os nossos sonhos.
Sonhos são sempre traiçoeiros. Sonhos são feitos para serem frustrados. Não sonhe com isto ou aquilo, com ele ou com ela, viva em vez de sonhar, abrace em vez de lembrar, fale com o outro em vez de pensar no outro.
O frio cortava a boca e calava a fala. O vento era impiedoso e afastavam os nossos sonhos, desculpas tolas saiam da boca, falas, falas, falas... Fala-se para evitar o medo da intimidade, fala-se para fugir do silêncio constrangedor que exige a verdade. Enquanto isso, os olhos miravam horizontes ainda não descobertos.

Reflexões I

Sua mente falava alto como reflexo das vozes que insistiam em calar o amor que sentia pela jovem que acabara de conhecer. Durante sua vida, Jonas tivera poucos amores consumados, em geral, durante a sua tenra juventude, suas paixões eram vividas em silêncio, como uma espécie de contemplação de um artesão diante da sua obra de arte recém acabada.

Penso que a interiorização tem valor abstrato, diante da força vívida e da interação real com o calor do mundo exterior.  Pensar alimenta o imaginário, mas não satisfaz a sede de viver.

De fato, a diferença de idade entre eles não era pequena. No começo Jonas achava estranho estar numa relação fora dos seus padrões, já que até então, só namorara moças da mesma faixa etária. Observo que a crítica mais comum se refere ao ‘real interesse’ envolvido entre os amantes de idades tão diferentes.

Certa vez, disseram-no que seu encanto pela jovem não passava de uma forma de saciar seu desejo sexual.  Onde há o mal no encontro de dois corpos que se desejam loucamente, que se encaixam perfeitamente? Como pode faltar pureza quando a consciência se faz una na fusão das almas?

Afinal, perguntava Jonas, de que é feito o amor? Seria o amor um pacote fechado, bem delineado, completamente lacrado contra a loucura dos sentidos e aspirações mais terrenas? Devemos rotular nossa relação com o outro como amor, paixão, delírio ou desejo?

Creio que o bom senso asfixia o coração, ele é uma forma de trazer os velhos padrões, vividos por outros à nossa vida na tentativa de imprimir verdades quase sempre mal resolvidas. Deixemos o pensamento, a paralisia mórbida para viver a vida como ela exige ser vivida.

Trocando em miúdos

Composição: Chico Buarque & Francis Hime

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde

 

Eu levo a carteira de identidade

 

Uma saideira, muita saudade

 

E a leve impressão de que já vou tarde.

 

Veneta

Edu Lobo

Como num conto de fada
Ou como alguém rolando a escada
Vou pra civilização
Cabeleira incendiada
No barranco, na boléia
Uma candeia em cada mão
Eu quero um amor de primavera
Procuro letreiro de néon
Pretendo zoar a noite inteira
Preciso encontrar um homem bom
Que me deixe louca a chorar pitangas no breu
Que me beije a boca na laje do arranha-céu

E se a vida tomar jeito
Vou andar no parapeito
Com vestido de lamê
Ou sentar na esquina da fome
Da guimba, do desdém
Da gangue da Praça da Sé
Eu quero um amor de primavera
Procuro letreiro de néon
Pretendo zoar a noite inteira
Preciso encontrar um homem bom
Que estenda um tapete vermelho e me beije a mão
Que me arranque a roupa no meio da multidão

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