São Paulo, a cidade de um homem só

A luz penetrava de forma agressiva através da janela, não havia pássaros e nem sombras de folhas movendo-se pela parede. Só havia cinza. O dia abafado, o som dos automóveis logo nas primeiras horas da manhã indicava que aquele seria mais um dia normal, mais um dia de alguém anônimo na grande São Paulo. Os sonhos ainda guardam o verde da infância, as lembranças trazem o ruído da corrente da bicicleta, o toque da bola nos pés e a voz da mãe que chama para a escola. Mas ele está ali, trancando entre suas memórias e seu presente mecânico, aprendeu muito com a solidão, sim, aprendeu a rir sozinho de frente ao espelho do banheiro, aprendeu a pedir pizza para si mesmo e no entanto, ainda sonha, todo final de semana, em ver o mar e andar na areia. No elevador há muitos estranhos, como ele. Há pessoas com histórias que parecem gritar dentro da pupila e que ao mesmo tempo, não ousam compartilhar por inteiro nem mesmo entre garrafas, numa mesa de bar. O amor é algo que passa como um filme, remendos mal feitos, cortes e vazios entre capítulos, não há ligações. O espaço do quarto é pequeno, na sala só há uma televisão, não há o que compartilhar. Só há medo, medo de dividir os sonhos e angústias com máscaras que desfilam pelas boates, pelos bares, pela noite paulistana, nós somos ilhas, ilhas quase desertas. Na internet ele buscava gente, qualquer pessoa que fosse como ele, que entendesse o vazio dele, que tivesse um espaço maior sem que pra isso ele precisasse preencher com sua vida solitária. Grupos se formam, identidades afins, punks, skin reds, góticos e anarquistas, enfim, todo tipo de material humano coisificado, guetificado, uma busca de identidade em meio ao cinza, a procura da unidade em meio a uma não-vida.

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