Vazio I
qua, 08/07/2009 - 03:41 — admin
Estou agora em meio ao meu vazio. Os tibetanos dizem que nenhuma casa está vazia se a mente está preenchida. Desde que minha casa se esvaziou (não vem ao caso o motivo), muito do poder simbólico, do que chamamos lar, com as coisas se foram.
Ajudei a comprar e escolher os móveis, os quadros, os enfeites e num único dia tudo se foi. Eu sabia que parte dos meus pertences iriam, mas não sabia que o material refletiria parte da minha identidade e sem ele eu não conseguiria me ver tão nitidamente como antigamente. Na verdade, este desabafo nada tem a ver com a casa vazia.
Só lembrei disso porque, quando escrevo, de frente para o computador há uma escuridão de sentidos, vindo da sala, que dialoga comigo mesmo sem a minha vontade. Sempre amei o 'meu cantinho', digo, o meu lar. Hoje não vejo ele e não me vejo mais nele.
Uma casa de uma pessoa só (entenda isso nos dois sentidos do 'só'), carece de vida e de movimento, que eu, sozinho, não sou capaz de fomentar. Amo a colaboração em todas as esferas da minha vida, no estudo, no trabalho e também no amor. Sinto falta disso hoje na minha casa, deste fluxo colaborativo, de vidas circulantes.
Pensar em filhos nessas horas é mais que natural, mas filhos devem vir para eles viverem e não para preencherem os vazios das pessoas. Engraçado, que no começo desse texto, eu nem imaginava que a figura da casa entraria nele, mas é interessante ver como isso tomou um posicionamento central na minha narrativa.
Dizem que a casa reflete muito da nossa personalidade, acho que vou mudar este papo para esta parte, deve ser mais produtivo. Personalidade Neste instante, querendo me livrar do tema da materialidade do meu lar, não posso negar, que no mesmo período da partida dos meus símbolos materiais, eu criei uma ruptura considerável com as crenças e valores que eu sempre cultivei. Isto foi muito marcante para mim.
Não convém entrar em detalhes tão pessoais, fico extremamente constrangido até mesmo postando isso de forma anônima neste blog. A passagem de 2008 para 2009 foi o momento mais marcante da minha vida. O falecimento da minha mãe de forma repentina, o esvaziamento do meu lar, brigas na minha relação e, para fechar com chave de ouro, uma enorme decepção amorosa quando o que eu mais precisava era conforto e estabilidade emocional. Isso tudo aconteceu em um ou dois meses, muita coisa para digerir, muitas escolhas para fazer, muitas malas para deixar pela estrada... Ainda não estou recuperado, na verdade, de nenhum destes acontecimentos.
Detesto a posição de vítima, não é o caso, mas o fato é que tomei muita porrada na minha estrutura em muito pouco tempo e não tenho a quem recorrer, ou melhor, nem sei se isso faria alguma diferença a essas alturas, pois só resta curar as feridas e aprender com as cicatrizes. Tenho feridas bem abertas mas não sou todo dor, em mim, mora alguém que acredita em felicidade e que, de alguma forma, sabe que isso é passageiro, que é apenas um período triste e infeliz que servirá apenas para dar contraste a um futuro de mais prosperidade.