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O Privado e o compartilhado numa relação a dois

Há pouco tempo tive a experiência de viver o dilema de saborear o dúbio sabor da privacidade numa relação. Até que ponto há reservas entre namorados ou casados, até onde ocultar ou até mentir em nome de uma boa relação. Evidentemente que não há regras, receitas de bolo e cada casal tem os seus limites que devem ser negociados.

Contratos, como sempre digo, onde as cláusulas devem ser claras e, em princípio, não devem ferir a nenhuma das partes. Mas até onde é aceitável a 'privacidade a todo custo' do nosso parceiro? A resposta é simples: até onde ele se mostra confiável para gerenciar a parte dele no contrato.

Há casais onde um simples toque de celular pode ser o começo de uma crise. O parceiro corre para o banheiro para atender, se desloca para outro cômodo, sussurra baixinho, ou responde numa atitude de visível desconforto diante do companheiro. A alegação para este tipo de atitude é sempre o espaço próprio, a manutenção da individualidade ou até medo de ser mal interpretado.

Outro conflito extremamente comum se dá quando o marido separa o final de semana para encontros com os amigos, seja para o choppinho ou futebol. Claro que a esposa sabe que ele mantém este hábito, é uma continuação da sua vida de jovem e que prioriza as suas amizades, o que parece bem saudável e natural. No último caso, a esposa poderia participar da rodada de chopp, fazer parte da torcida, ou mesmo preparar a caipirinha depois para depois do futebol. Mas para haver esta interação, ela deve estar inclinada na mesma direção do marido e, ao mesmo tempo, deve haver uma disposição do marido em incluir a amada nos seus encontros.

Recentemente, com o uso generalizado da internet e com a entrada dela nos escritórios e residências, fica cada vez mais comum os encontros - e desencontros - gerados pelas ferramentas de redes sociais, como MSN, Orkut, Chats etc. Em algumas casas, as máquinas são compartilhadas, em outras, cada cônjuge possui seu próprio computador, muitas vezes por questões profissionais. Mas até onde o uso de ferramentas como MSN ou Orkut deve ser um ambiente blindado à visão do parceiro? Há justificativa para se ocultar mensagens do outro quando numa 'sociedade' a confiança deveria ser a base da relação? A resposta não tão é simples. Em primeiro lugar há diferentes tipos de relações.

Pode-se ocultar certas coisas do parceiro para manter a "boa atmosfera", onde sucessivas mensagens amorosas a um amigo ou amiga pode vir a ser interpretado como flerte. Mas e quando se vê, de forma clara e explícita, mensagens de insinuação? Como reagir? A resposta é ainda mais complicada. Há um dilema ético envolvido em certas ações quando se descobre que o outro ultrapassa os limites acordados na relação.

É muito recorrente o uso, por parte de um dos parceiros desconfiados, de programas para monitorarem a escrita de uma determinada máquina dividida pelo casal. Evidentemente que é uma atitude condenável, principalmente quando não 'se descobre' nada. Mas e quando se acha mensagens comprometedoras? Neste caso, os fins justificam os meios? Vamos desdobrar este assunto.

É extremamente comum pessoas trocarem brincadeiras afetivas, sensuais e sexuais pela internet. Neste ambiente, onde se pode criar personagens e viver vidas virtuais, as pessoas podem assumir faces muito mais reais do que se encena no seu dia a dia. Até onde isso pode virar um problema real na vida do casal? Até onde a fantasia e a interação dela via internet pode virar um caso de traição e não uma simples brincadeira? O que separa ao meu ver a brincadeira do risco real é o momento que o casal vive e, por outro lado, a disposição real do parceiro a cometer uma infidelidade.

Num ambiente de brigas, de desentendimentos e até de pura insatisfação, este flerte que poderia ser um ensaio fantasioso pode virar uma verdadeira arma contra o outro parceiro. Dificilmente alguém levaria adiante um desentendimento causado por uma "infidelidade virtual" onde o outro estaria do outro lado do planeta. Mas e quando o outro é conhecido ou vizinho do casal? Estaria o flerte estritamente ligado ao ambiente virtual? Há garantia para o parceiro afetado? Neste caso a temperatura começa a esquentar e o que poderia ser uma simples fantasia/brincadeira torna-se uma potente fonte de conflitos.

Voltando ao tema central, até que ponto é positivo manter e defender a total privacidade numa relação? Há dois ditados populares que se conflitam e se complementam neste dilema: "Quem não deve não teme" "Quem procura acha (mesmo que não haja nada)"

Voltei ao Orkut

Devido aos apelos da minha amada, retornei ao Orkut.

Confesso que ainda não estou totalmente acomodado nele, estou meio que sem identidade. Chamei alguns amigos e continuo adicionando outros de forma tímida. Não sei mais o que fazer com ele, perdi o prazer de entrar e participar das comunidades, que era a única coisa que fazia no passado.

Antes, eu usava o Orkut para fins profissionais, hoje, sei lá, me sinto um bobo na corte, um palhaço a espera de uma bolada para cair numa piscina. Graças ao Orkut muitas relações se fizeram e desfizeram. A transparência dele dói. Te obriga a ver o que não seria tão fácil no mundo real, e isso é duro.

O "legal" do Orkut é que por mais que seu parceiro(a) seja dissimulado(a), o outro lado sempre entorna o caldo, vamos a um exemplo: Uma amiga terminou um namoro de 2 anos porque viu um scrap duvidoso na página do amado. No scrap só havia algo assim: "Ontem foi inesquecível". Eu até argumentei que talvez não fosse o que ela pensou, mas bingo, ela estava certa, era um scrap da amante, e a amiga, de tanto pressionar, ele confessou. Sortuda ela né? Deus louve os scraps que são escritos na madrugada e apagados nas primeiras horas da manhã sorrateiramente.

Deus louve o faro dos ciumentos que por via de regra, nunca estão 100% enganados. Mas no Orkut não há só esse tipo de coisa, há também as comunidades, há troca de conhecimento, há muitas coisas boas, até, namoradas online.

Orkuticídio - eu fiz!

Depois de anos de Orkut, enfim, chegou a hora da morte. A decisão da partida veio há algum tempo, estava amadurecendo esta idéia, sair da minha rede social, esquecer as minhas comunidades, abdicar dos meus amigos. Morrer para renascer.

Queria ter sido mais forte. Queria ter resistido mais bravamente, mas não deu. Assim como na morte real, às vezes, é preciso descansar e dar espaço para os outros, para os mais jovens. Muitas vezes é preciso que um morra para que o outro renasça, pelo que vi, já nasceu e vai muito bem, obrigado.

Dar espaço... Faço sempre que me sinto no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada. Acho que foi isso, mudou o contexto, mudaram as pessoas, mudei eu, logo, parto desta existência para outras mais desafiadoras, que não me exijam tanta discrição nem que me tragam o cálice dourado embebido do sangue da minha alma, como ornamento para eu ostentar em minha morada.

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